Projeto

  • 7a Bienal do Mercosul: Grito e Escuta

    A 7ª Bienal do Mercosul considerou o artista como ator social e constante produtor de um sentido crítico necessário. A proposta foi explorar um amplo espectro de processos criativos e de mecânicas de trabalho e posicionar o olhar artístico no centro de cada uma das exposições e de cada um dos programas. Em sintonia com essas ideias, artistas de poéticas e procedências muito variadas foram convidados para organizar as exposições, desenvolver as ferramentas e os programas educativos e estruturar a comunicação midiática e o sistema de publicações. Convocamos Marina De Caro (Argentina) como Curadora Pedagógica; Erick Beltrán (México) e Bernardo Ortiz (Colômbia) como Curadores Editoriais; Artur Lescher (Brasil), Laura Lima (Brasil), Mario Navarro (Chile) e Roberto Jacoby (Argentina) como Curadores Adjuntos; e Lenora de Barros (Brasil) como Co-Curadora da Radiovisual, com os quais ficou constituída uma equipe de dez pessoas residentes em cinco cidades – Bogotá, Santiago de Chile, São Paulo, Rio de Janeiro e Barcelona – e uma base de operações em Porto Alegre. Ficou conformada, assim, uma Bienal que teve um forte perfil latino-americano.

    O processo de construção da 7ª Bienal adotou as formas do fazer artístico, em que argumentações e operações iriam se articulando aos poucos, abrangendo desde o desenho mais amplo até o detalhe menor. Foi adotado um mecanismo de construção de conhecimento conjunto, em cuja base radicava a consideração da arte como um processo de investigação e da obra de arte como um dispositivo de provocação intelectual que permite começar a vislumbrar o complexo processo da criação e que se alimenta do diálogo com a atualidade e com a história. Quisemos descobrir o que acontece quando as formas do fazer artístico invadem e contagiam – por meio do acúmulo de pequenas transformações – o sistema estrutural e operativo da instituição Bienal. Quisemos correr os riscos próprios da arte, sem saber, com certeza, quais seriam os resultados.

    Considerada em seu conjunto, a 7ª Bienal propôs um giro metodológico: um sistema cuja ênfase foi sobre os processos de criação – mais do que em assuntos específicos – em que ação e reflexão (Grito e Escuta) operaram como campos de pesquisa a partir dos quais foi articulada a Bienal. Tivemos o interesse de explorar os modos em que os artistas articulam e rearticulam um sistema não hierárquico de conhecimento e criam possibilidades dinâmicas de relação com cada espectador, considerando-o um ser autônomo capaz de criar seu próprio sistema de leitura e descoberta da Bienal. Foi do nosso interesse, também, planejar a 7ª Bienal do Mercosul como uma engrenagem orgânica, com sete exposições que deliberaram sobre o processo criativo contemporâneo a partir de diversos pontos de vista, e três programas que tiveram a função de amplificar a relação entre arte e público: o Projeto Pedagógico, a Curadoria Editorial e a Radiovisual. Foram desenvolvidos os programas no intuito de potencializar a pertinência das propostas artísticas dentro e fora das exibições, explorando sua ressonância além de todo muro de contenção.

    Sob a liderança da artista Marina De Caro, o Projeto Pedagógico foi conduzido, literalmente, para as entranhas do estado do Rio Grande do Sul. De Caro convocou doze artistas latino-americanos e europeus para pensar o modo em que seus projetos artísticos – de importante potencial pedagógico – poderiam ser traduzidos em metodologias educativas aplicáveis pelos professores nas escolas. O programa de residências começou em escolas de cinco cidades do estado e terminou sendo realizado em vinte cidades. Segundo De Caro: “Há que levar a Bienal às pessoas, não as pessoas à Bienal”.

    A Curadoria Editorial – dirigida por Erick Beltrán e Bernardo Ortiz – ficou encarregada da comunicação da 7ª Bienal, o que implicou o desenvolvimento de três áreas de trabalho. Em primeiro lugar, a criação do isotipo da 7ª Bienal, caracterizado pela mobilidade contínua própria de todo o processo criativo. Em segundo lugar, a criação de um sistema de publicações e de um sítio “web” articulados sobre o entendimento de que uma obra de arte pode ser vista a partir de múltiplos níveis de distância, todos igualmente complexos. Finalmente, esta curadoria propôs ações de inserção da arte nos meios massivos de comunicação – jornais, cartazes na rua e intervalos comerciais de televisão.

    A Radiovisual, um programa de rádio concebido por Artur Lescher e desenvolvido por Lenora de Barros, permitiu aproximar o caldeirão de ideias da 7ª Bienal ao público de Porto Alegre e também ao público do estado de Rio Grande do Sul. O primeiro programa foi ao ar na sexta-feira 16 de outubro de 2009, dia da inauguração da Bienal, e a partir desse dia pôde ser ouvida diariamente às 22 horas, 4 minutos e 33 segundos,  pela Rádio FM Cultura de Porto Alegre, dial FM 107.7, ou de forma contínua no sítio “web” da 7ª Bienal: http://www.bienalmercosul.art.br.

    As exposições foram desenvolvidas ao longo de dois eixos interconectados: exposições que exploraram a situação do artista e exposições que focalizaram aspectos pontuais do processo artístico contemporâneo. Juntas, incluíram, em termos gerais, obras e ações de uma grande quantidade de artistas que não haviam transitado antes as trilhas das grandes exposições internacionais. Várias tomaram formas inesperadas: um deserto de areia, um cenário de teatro, um lugar virtual, uma estação de rádio. Sem obras de enorme monumentalidade – resultado direto dos expressivos recortes orçamentários, da ordem de 50%, em plena crise financeira –, a 7ª Bienal arriscou em um processo de reflexão construído de exposição em exposição e de exposição em programa (educativo, editorial ou radiofônico). No seu conjunto, explorou os caminhos da instabilidade, o cruzamento de limites e a mobilidade própria da Arte com maiúsculas, sempre em ebulição, sempre questionando o estabelecido, sempre se perguntando por novas maneiras de olhar o mundo, o contexto mais imediato e a vida em sociedade.

    A exposição Desenho das Ideias propôs o desenho como veículo portador de ideias e articulou, ao longo das suas salas, três ordens de conversações: entre artistas do presente e do passado, dando conta da dinâmica de mudança e permanência nas questões da arte; entre os artistas de cada sala e os processos de construção de obra específicos de cada um; e entre os processos aqui expostos e as pesquisas das exposições e programas da 7ª Bienal.  A exposição atuou como uma caixa de ressonância que procurou amplificar o som de uma multiplicidade de ideias e questionamentos plasmados sobre nossa mesa de trabalho.

    Entre as exposições que indagaram sobre a figura do artista, Biografias Coletivas refletiu sobre o artista como sujeito social que trabalha com comunidades e interpelou as condições culturais e as políticas de contextos específicos. Vários artistas trabalharam em colaboração com as comunidades locais aprofundando sobre o modo em que a própria história pode ser construída de forma coletiva. Ficções do Invisível indagou sobre o artista como sujeito individual, que despoja sua linguagem e expõe cruamente aqueles aspectos da produção artística que habitualmente ficam apagados ou sublimados na obra terminada. Em um grande cenário de teatro, os artistas expuseram o que há por trás da cena com mínimos elementos. Absurdo, curada por Laura Lima, explorou estratégias que permitem atravessar limites estabelecidos e destacou a importância do humor como instrumento de desestabilização e questionamento. A exposição explorou a instabilidade através da metáfora de um enorme deserto a ser transitado como um território de múltiplas perguntas.

    Entre as exposições que focalizaram aspectos pontuais do processo artístico contemporâneo, além das mencionadas, Árvore Magnética, curada por Mario Navarro, destacou a importância da transformação como ferramenta capaz de deslocar a percepção da obra e sugerir uma suspensão do tempo. Nessa exposição, as obras foram modificadas dez vezes durante o transcurso da Bienal. Por sua parte, Projetáveis, desenvolvida por Roberto Jacoby, deu forma à convocatória aberta da 7ª Bienal ao mesmo tempo em que convocou artistas de todo o mundo a refletir sobre os conceitos de projeto e de projeção, em suas diversas acepções. Entre os 800 projetos apresentados, 19 foram exibidos no Santander Cultural, os quais, junto a outros 11, são apresentados on-line no sítio “web” da 7ª Bienal: www.bienalmercosul.art.br/projetaveis. Finalmente, materializando de modo emblemático o anseio de abertura desta Bienal, a exposição Texto Público, curada por Artur Lescher, explorou as estratégias de inserção e de irradiação da arte no próprio entramado da cidade. Pensada como um mapa ou um plano de ocupação do espaço público, a exposição fundou Radiovisual, e incluiu, também, os projetos in situ de 19 artistas convocados a discutirem poeticamente a questão do espaço público e o ato de publicar, de tornar público.

    Juntos, exposições e programas compuseram um sistema orgânico, transversal e móvel caracterizado pela expansão e pela abertura, que permitiu conceber a 7ª Bienal como um espaço para o pensamento e para a provocação intelectual e sensorial, para o exercício da imaginação e para a transposição de limites tanto físicos (muros) quanto institucionais (restrições).

    Por sua parte, o título da Bienal, Grito e Escuta, remete à importância de explorar a comunicação multidirecional – entre um mundo em conflito e um artista que escuta e responde; entre um artista que produz sentido através de múltiplas linguagens com a intenção de que o mundo escute e que questiona a hegemonia da visualidade. A 7ª Bienal explorou a sonoridade, o movimento corporal, a vivência social e a vivência pedagógica como partes integrais da experiência da arte hoje.

    Esse título foi também um chamado de atenção que assinalou a intenção da 7ª Bienal do Mercosul de incorporar um amplo espectro de conteúdos: desde o artista que realiza uma ação para gerar uma transformação ou um impacto concreto sobre a realidade, até o artista que promove a atitude reflexiva e a escuta ante o entorno, que resgata o poder da conversação como modelo possível de construção para uma sociedade melhor.

    - Victoria Noorthoorn e Camilo Yáñez, Curadores Gerais


  • 7th Mercosul Biennial: Grito e Escuta (Screaming and Listening)

    The 7th Mercosul Biennial considered the artist a social player and constant producer of necessary critical visions. It set out to explore a wide spectrum of creative processes and production mechanisms, and to place the artistic vision at the core of each of the Biennial´s exhibitions and programs. Artists with very diverse poetics and backgrounds were invited to organize the exhibitions, to develop the educational tools and programs, and to structure the publications system and the communicational strategies in the media. We invited Marina De Caro (Argentina) as Curator of Education; Erick Beltrán (Mexico) and Bernardo Ortiz (Colombia) as Editorial Curators; Artur Lescher (Brazil), Laura Lima (Brazil), Mario Navarro (Chile) and Roberto Jacoby (Argentina) as Adjunct Curators; and Lenora de Barros (Brazil) as the Co-Curator of Radiovisual. Thus, we created a 10-person team with residents of five cities - Bogota, Santiago, São Paulo, Rio de Janeiro and Barcelona – and a base of operations in Porto Alegre. Hence, this Biennial was truly a joint Latin American endeavor.

     

    Artistic processes informed the making of the Biennial, from the broadest outline to the smallest detail. A joint mechanism for constructing knowledge was adopted, at the basis of which lay a conception of art as a process of research and of the work of art as a device for intellectual provocation, opening windows into the complex process of creation, nurtured by a dialogue with the present and the past. We wanted to explore what would happen when –through a progression of small transformations– artistic practices insinuated themselves on an institutional level into the operating systems of the Biennial. We wanted to take all the risks of art, not knowing exactly what the results would be.

    As a whole, the 7th Biennial entailed a methodological shift: its system emphasized the processes of creation, rather than specific themes. Action and reflection (Grito e Escuta) were territories to be explored, and upon these grounds the Biennial as a whole was built. We were concerned with exploring the ways in which artists articulate and re-articulate a non-hierarchical system of knowledge and create dynamic possibilities in relation to each viewer --viewers capable of building their own systems of reading and exploring the Biennial. We were also interested in conceiving of this Biennial as an organic system, with seven exhibitions that discuss the contemporary creative processes from different points of view; and three programs –the Education Project, the Editorial Program and Radiovisual– whose mission was to expand the relationship between art and its audience. The programs were developed in order to expand the scope of the artists’ formulations both inside and outside the exhibitions, projecting their echoes beyond the surrounding walls. 

    Under the leadership of artist Marina De Caro, the Education Project was literally taken into the heart of the state of Rio Grande do Sul. De Caro invited twelve artists, all but one of them from Latin America, to consider how their artistic projects – of important educational potential - could actually be translated into educational methodologies that could then be applied by school teachers. The residency program started in schools in five cities in the state, and was eventually brought to twenty. According to De Caro, “We must take the Biennial to the people, not the people to the Biennial.”

    The Editorial Program –directed by Erick Beltrán and Bernardo Ortiz– was in charge of the Biennial's communicational strategies, and it entailed three areas. First, the creation of the 7th Biennial isotype, characterized by the constant mobility common to all creative processes. The publications system and website were likewise constructed on the basis of the idea that a work of art can be seen from various distances and points of view, all of them equally complex. Lastly, this project entailed inserting art in the mass media – in newspapers, billboards, and commercial spots on television.

    Conceived by Artur Lescher and developed by Lenora de Barros, the radio program "Radiovisual" allowed the hotbed of ideas known as the 7th Biennial to reach the people of Porto Alegre and the state of Rio Grande do Sul at large. The first program was aired on Friday, October 16, 2009, the day that the Biennial opened. Thereafter, it was on the air every day at 10:04:33 pm until the end of the Biennial; the programs were transmitted on Radio FM Cultura of Porto Alegre (FM 107.7) and consecutively on the Biennial’s website: www.bienalmercosul.art.br.

     

    The exhibitions involved two interconnected strains: exhibitions that explored the situation of the artist and exhibitions that focused on specific processes of the contemporary arts. Together, they included works and actions by a large number of artists, many of whom had never before participated in major international exhibitions. Many of these took on unexpected forms: a desert of sand, a stage, a virtual site, a radio station. Without hugely spectacular works – a direct result of the serious budget cuts (of around 50%) effected in the midst of the world financial crisis –, the 7th Biennial placed its hopes on a process of reflection built from exhibition to exhibition and from exhibition to program (educational, editorial and radio). As a whole, it explored the paths of instability, the crossing of limits and the mobility that characterize Art,  always in motion, questioning the status quo and searching for new ways of looking at the world, the immediate context, and life in society.

    The exhibition entitled "Desenho das Ideias" proposed drawing as a vehicle of ideas and initiated, throughout its galleries, three orders of conversation: between artists from the present and the past, bearing witness to the changing and enduring questions of art; between the artists in each gallery, revealing their specific construction processes; and between its exhibits and the concerns of the other exhibitions and programs of the Biennial. This exhibition thus served as an echoing chamber that attempted to amplify the resonances of the multiplicity of ideas and questions that came up during our group conversations.

    Several exhibitions were concerned with the figure of the artist. "Biografias Coletivas" dealt with the artist as a social subject who works with communities, questioning cultural conditions and policies in specific contexts. Several artists worked with local communities investigating how a life story can be constructed collectively. "Ficções do Invisível" centered on the artist as an individual subject who strips down his or her language to starkly expose components of artistic production usually erased or subliminated in the finished work. On a large stage, the artists used minimum elements to exhibit what goes on backstage. "Absurdo", curated by Laura Lima, explored strategies for crossing established limits, highlighting the importance of humor as an instrument of destabilization and questioning. The metaphor of an enormous desert to be crossed like a territory of multiple questions was the basis for an exhibition that explored various notions of instability.

    Of the exhibitions that focused on specific processes of contemporary art, "Árvore Magnética", curated by Mario Navarro, emphasized the importance of transformation as a tool for dislocating perception of a work of art and effecting a suspension of time. The works in this exhibition were modified ten times during the course of the Biennial.  "Projetáveis", developed by Roberto Jacoby, resulted from an open call for submissions by which the 7th Biennial invited artists from around the world to reflect on the concepts of project and projection. Of the 800 projects submitted, nineteen were exhibited at the Santander Cultural and, along with eleven others, are presented online on the Biennial’s website: www.bienalmercosul.art.br/projetaveis. The exhibition "Texto Público", curated by Artur Lescher, fully embodied this Biennial’s insistence on openness. It explored strategies for inserting and spreading art throughout the city itself. Conceived as a map by which to occupy public space, the exhibition founded Radiovisual, and included site-specific projects by nineteen artists invited to discuss the question of public space and the act of publishing, of making public.

    Considered together, the Biennial’s exhibitions and programs constituted an organic, transversal and mobile system characterized by expansion and openness, turning the 7th Biennial into a space for thought, intellectual and sensorial provocation, as well as an exercise of the imagination, of going beyond limits, whether physical (walls) or institutional (restrictions).

    The title of the Biennial, "Grito e Escuta" (Screaming and Listening), underscores the importance of effecting multi-directional communication between, for instance, a world in conflict and an artist who listens and responds; between an artist who produces meaning for the world to listen to, and in so doing questions the hegemony of visuality: exploring sound, body movement, and social and educational experience as integral parts of the experience of art today.

    The title was also a call to attention that highlighted the 7th Biennial's intention to include a wide range of contents: from the artist who undertakes an action in order to generate a specific change or impact on reality, to the artist who will listen to and reflect on his or her context, who believes in the power of conversation, in its potential for creating a better world.

    - Victoria Noorthoorn and Camilo Yáñez, Chief Curators

  • 7a Bienal do Mercosul: Grito e Escuta

    La 7ª Bienal do Mercosul consideró al artista como un actor social y constante productor de un sentido crítico necesario. Se propuso explorar un amplio espectro de procesos creativos y de mecánicas de trabajo y posicionar la mirada artística en el centro de cada una de las exposiciones y programas. En sintonía con estas ideas, artistas de muy diversas poéticas y procedencias fueron invitados a organizar las exposiciones, desarrollar las herramientas y los programas educativos y estructurar la comunicación mediática y el sistema de publicaciones. Convocamos a Marina De Caro (Argentina) como Curadora Pedagógica; a Erick Beltrán (México) y a Bernardo Ortiz (Colombia) como Curadores Editoriales; a Artur Lescher (Brasil), Laura Lima (Brasil), Mario Navarro (Chile) y Roberto Jacoby (Argentina) como Curadores Adjuntos; y a Lenora de Barros (Brasil) como Co-Curadora de la Radiovisual, con lo que se constituyó un equipo de diez personas residentes en cinco ciudades –Bogotá, Santiago de Chile, São Paulo, Rio de Janeiro y Barcelona– y una base de operaciones en Porto Alegre. Se conformaría una Bienal que tuvo una fuerte impronta latinoamericana.

    El proceso de construcción de la 7ª Bienal adoptó las formas del hacer artístico, donde argumentaciones y operaciones se irían articulando poco a poco, abarcando desde el diseño más amplio hasta el detalle más pequeño. Se adoptó un mecanismo de construcción de conocimiento conjunto, en cuya base radicaba la consideración del arte como un proceso de investigación y de la obra de arte como un dispositivo de provocación intelectual que permite comenzar a vislumbrar el complejo proceso de la creación y que se alimenta del diálogo con la actualidad y con la historia. Quisimos investigar qué sucede cuando los modos del hacer artístico invaden y contagian –mediante un cúmulo de pequeñas transformaciones– el sistema estructural y operativo de la institución Bienal. Quisimos correr los riesgos propios del arte, sin saber, a ciencia cierta, cuáles serían los resultados.

    Considerada en su conjunto, la 7ª Bienal propuso un giro metodológico: un sistema cuyo énfasis estaba puesto sobre los procesos de creación –más que en temas específicos– donde acción y reflexión (Grito e Escuta) operaron como campos de investigación a partir de los cuales se articuló la Bienal en su totalidad. Nos interesó explorar los modos en que los artistas articulan y rearticulan un sistema no jerárquico de conocimiento y crean posibilidades dinámicas de relación con cada espectador, considerado un ser autónomo y capaz de armar su propio sistema de lectura y descubrimiento de la Bienal. Interesó, también, concebir la 7ª Bienal do Mercosul como un engranaje orgánico, con siete exposiciones que deliberaron sobre el proceso creativo contemporáneo desde diversos puntos de vista, y tres programas que tuvieron la función de amplificar la relación entre arte y público: el Proyecto Pedagógico, la Curaduría Editorial y la Radiovisual. Se desarrollaron los programas de modo tal de potenciar la pertinencia de las propuestas artísticas dentro y fuera de las exhibiciones, explorando su resonancia más allá de todo muro de contención.

    Bajo el liderazgo de la artista Marina De Caro, el Proyecto Pedagógico fue llevado literalmente hacia las entrañas del estado de Rio Grande do Sul. De Caro convocó a doce artistas latinoamericanos y europeos a pensar el modo en que sus proyectos artísticos –de importante potencial pedagógico– podrían ser traducidos en metodologías educativas aplicables por los profesores en las escuelas. El programa de residencias se inició en escuelas de cinco ciudades del estado y terminó llevándose a cabo en veinte ciudades. Según De Caro: “Hay que llevar la Bienal a las personas, no las personas a la Bienal”.

    La Curaduría Editorial –dirigida por Erick Beltrán y Bernardo Ortiz– tuvo a su cargo la comunicación de la 7ª Bienal, lo cual implicó el desarrollo de tres áreas de trabajo. En primer lugar, la creación del isotipo de la 7ª Bienal, caracterizado por la movilidad continua propia de todo proceso creativo. Asimismo, la creación de un sistema de publicaciones y un sitio web articulados sobre la base de que una obra de arte puede ser vista a partir de múltiples niveles de distancia, todos igualmente complejos. Finalmente, esta curaduría propuso acciones de inserción del arte en los medios masivos de comunicación –en periódicos, afiches en la calle, e intervalos comerciales en la TV.

    Por su parte, Radiovisual, un programa de radio concebido por Artur Lescher y desarrollado por Lenora De Barros, permitió acercar el caldero de ideas de la 7ª Bienal al público de Porto Alegre, y, más allá, al público del estado de Rio Grande do Sul. El primer programa estuvo en el aire el viernes 16 de octubre de 2009, día de la inauguración de la Bienal, y desde entonces pudo escucharse diariamente a las 22 horas, 4 minutos y 33 segundos, desde la Radio FM Cultura de Porto Alegre, dial FM 107.7, o de forma continua en el sitio web de la 7ª Bienal: http://www.bienalmercosul.art.br.

    Las exposiciones se desarrollaron a lo largo de dos ejes interconectados: exposiciones que exploraron la situación del artista y exposiciones que focalizaron sobre aspectos puntuales del proceso artístico contemporáneo. Juntas incluyeron, en términos generales, obras y acciones de una gran cantidad de artistas que no habían transitado antes las sendas de las grandes exposiciones internacionales. Varias tomaron formas inesperadas: un desierto de arena, un escenario de teatro, un sitio virtual, una estación de radio. Sin obras de enorme espectacularidad –resultado directo de los brutales recortes presupuestarios, del orden del 50%, en plena crisis financiera–, la 7ª Bienal se arriesgó por un proceso de reflexión construido de exposición en exposición y de exposición en programa (educativo, editorial o radiofónico). En su conjunto, exploró los caminos de la inestabilidad, el cruce de límites y la movilidad propia del Arte con mayúsculas, siempre en ebullición, siempre cuestionando lo establecido, siempre preguntándose por nuevas maneras de mirar el mundo, el contexto más inmediato, y la vida en sociedad.

    La exposición Desenho das Ideias propuso al dibujo como vehículo portador de ideas y articuló, a lo largo de sus salas, tres órdenes de conversaciones: entre artistas del presente y del pasado, dando cuenta de la dinámica de cambios y permanencia en las cuestiones del arte; entre los artistas de cada sala y los procesos de construcción de obra específicos a cada uno; y entre los procesos aquí expuestos y las investigaciones de las exposiciones y programas de la 7ª Bienal. La exposición actuó como una caja de resonancia que buscó amplificar el sonido de una multiplicidad de ideas y cuestionamientos plasmados sobre nuestra mesa de trabajo.

    Entre las exposiciones que indagaron sobre la figura del artista, Biografias Coletivas reflexionó sobre el artista como sujeto social que trabaja con comunidades e interpeló las condiciones culturales y las políticas de contextos específicos. Varios artistas trabajaron en colaboración con las comunidades locales indagando sobre el modo en que la propia historia puede construirse de forma colectiva. Ficções do Invisível indagó sobre el artista como sujeto individual, que despoja su lenguaje y expone crudamente aquellos aspectos de la producción artística que habitualmente quedan borrados o sublimados en la obra terminada. Dentro de un gran escenario de teatro, los artistas expusieron el detrás de escena con mínimos elementos. Absurdo, curada por Laura Lima, exploró estrategias que permiten cruzar límites establecidos y puso en relieve la importancia del humor como instrumento de desestabilización y cuestionamiento. La exposición exploró la inestabilidad a través de la metáfora de un enorme desierto a ser transitado como un territorio de múltiples preguntas.

    Entre las exposiciones que focalizan sobre aspectos puntuales del proceso artístico contemporáneo, además de las mencionadas, Árvore Magnética, curada por Mario Navarro, subrayó la importancia de la transformación como herramienta capaz de dislocar la percepción de la obra y sugerir una suspensión del tiempo. En esta exposición las obras se modificaron diez veces durante el transcurso de la Bienal. Por su parte, Projetáveis, desarrollada por Roberto Jacoby, dio forma a la convocatoria abierta de la 7ª Bienal al tiempo que invitó a los artistas de todas partes del mundo a reflexionar sobre los conceptos de proyecto y de proyección, en sus diversas acepciones. Entre los 800 proyectos presentados, 19 se exhibieron en el Santander Cultural y junto a otros 11 se presentan online en el sitio web de la 7ª Bienal. Finalmente, materializando de modo emblemático el afán de apertura de esta Bienal, la exposición Texto Público, curada por Artur Lescher, exploró las estrategias de inserción y de irradiación del arte en el tejido mismo de la ciudad. Pensada como un mapa o un plano de ocupación del espacio público, la exposición fundó Radiovisual, e incluyó, asimismo, los proyectos in situ de 21 artistas convocados a discutir poéticamente la cuestión del espacio público y el acto de publicar, de tornar público.

    Juntos, exposiciones y programas conformaron un sistema orgánico, transversal y móvil caracterizado por la expansión y la apertura, que nos permitió concebir la 7ª Bienal como un espacio para el pensamiento y para la provocación intelectual y sensorial, el ejercicio de la imaginación y el cruce de límites tanto físicos (muros) como institucionales (restricciones).

    Por su parte, el título de la Bienal, "Grito e Escuta", remite a la importancia de explorar la comunicación multidireccional –entre un mundo en conflicto y un artista que escucha y responde; entre un artista que produce sentido a través de múltiples lenguajes con la intención de que el mundo escuche y que cuestiona la hegemonía de la visualidad. La 7ª Bienal exploró la sonoridad, el movimiento corporal, la vivencia social y la vivencia pedagógica como partes integrales de la experiencia del arte hoy.

    Este título fue también un llamado de atención que señaló la intención de la 7ª Bienal de incorporar un amplio espectro de contenidos: desde el artista que realiza una acción para generar un cambio o un impacto concreto sobre la realidad, hasta el artista que promueve la actitud reflexiva y la escucha ante el entorno, que rescata el poder de la conversación como modelo posible de construcción para una sociedad mejor.

    - Victoria Noorthoorn y Camilo Yáñez, Curadores Generales